Para a advogada internacionalista Érika Calazans, a escolha do visto começa pelo caminho até a licença: residência médica, vias estaduais sem residência e green card pedido pelo próprio médico levam a exigências diferentes
Para Érika Calazans, advogada internacionalista e doutora em Direito Internacional pela Universidade de Kobe, no Japão, a pergunta sobre qual visto o médico brasileiro precisa para trabalhar nos Estados Unidos só tem resposta depois de outra: por qual caminho esse médico vai chegar à licença. Residência médica, vias estaduais que dispensam a residência americana e green card pedido pelo próprio profissional levam a vistos diferentes, com prazos, exigências e riscos próprios.
“O erro mais frequente é escolher o visto antes de escolher o caminho. A ordem certa é a inversa: primeiro se define onde e como o médico vai poder atender, depois qual visto sustenta esse caminho”, afirma Érika.
A separação tem base legal. A licença para atender pacientes é concedida pelo conselho médico de cada estado, enquanto o direito de morar e trabalhar no país depende das autoridades federais de imigração. Uma coisa não substitui a outra: o green card garante a residência permanente, mas não autoriza o atendimento, e a licença estadual não resolve a situação migratória.
A residência e o J-1
Para quem vai fazer residência, o visto mais comum é o J-1, de intercâmbio, patrocinado pela ECFMG, a entidade que certifica os médicos formados no exterior. Ele traz uma condição que costuma surpreender: ao fim do treinamento, a lei de imigração americana exige que o médico volte ao país de origem por dois anos antes de pedir um visto de trabalho ou o green card.
Essa exigência pode ser dispensada. A via mais conhecida é o programa Conrad 30, em que cada estado pode indicar até 30 médicos por ano em troca de três anos de trabalho em tempo integral em áreas com falta de profissionais. O programa depende de renovação periódica do Congresso americano e, em meados de 2026, aguardava nova autorização. Agências federais, como o Departamento de Assuntos de Veteranos, também podem apoiar pedidos de dispensa.
“Quem faz residência com o J-1 precisa saber, antes de embarcar, que a lei exige o retorno de dois anos ao país de origem. A dispensa é possível, mas o planejamento começa no início da residência, porque a vaga e o pedido precisam estar prontos antes do fim do programa”, diz Érika.
O H-1B e a terceira prova
O H-1B, visto de trabalho patrocinado pelo empregador, aparece na residência e depois dela, mas cobra mais do médico que vai atender pacientes: além da certificação da ECFMG, ele precisa ter passado nas três etapas do USMLE, o exame de licenciamento americano, e ter a licença ou a autorização do estado onde vai trabalhar. É uma das razões pelas quais nem todo programa de residência oferece esse visto.
O H-1B tem uma cota anual definida por sorteio, mas universidades, hospitais sem fins lucrativos ligados a elas e instituições de pesquisa sem fins lucrativos podem contratar fora dela. Em 2025, o governo americano criou uma taxa de US$ 100 mil para novos pedidos de H-1B de profissionais que estão fora do país. A Justiça federal anulou a cobrança em junho de 2026; o governo recorreu e prorrogou a medida por proclamação até setembro de 2027. Enquanto a decisão judicial estiver de pé, a taxa não é cobrada.
As vias estaduais também pedem visto
A mudança mais recente veio dos estados. Segundo levantamento da World Education Services (WES), organização americana de avaliação de diplomas, publicado em junho de 2026, 27 estados e dois territórios aprovaram leis que abrem caminho para médicos formados no exterior chegarem à licença sem refazer a residência americana. Só 13, porém, já tinham as regras funcionando: Arkansas, Colorado, Flórida, Idaho, Illinois, Indiana, Iowa, Minnesota, Oklahoma, Tennessee, Texas, Washington e Wisconsin.
Em geral, essas vias começam com uma licença provisória, trabalho supervisionado e um empregador aprovado, muitas vezes em regiões com falta de médicos. É nesse ponto que o visto volta ao centro da decisão: a oferta de emprego costuma vir acompanhada de um pedido de visto de trabalho, e alguns estados exigem status migratório federal para conceder a licença provisória.
“A via estadual encurta a formação, não o processo migratório. O médico continua precisando de um empregador e de um visto que caibam nas regras daquele estado”, explica Érika.
O green card pedido pelo próprio médico
Para quem quer morar nos Estados Unidos de forma permanente, o caminho é o green card, que pode vir pelo patrocínio de um empregador ou pelo pedido do próprio profissional, o chamado self petition. No EB-2 NIW, categoria de interesse nacional, o médico dispensa a oferta de emprego e a certificação trabalhista se demonstrar que a atuação proposta tem mérito e importância nacional, que está bem posicionado para levá-la adiante e que dispensar essas exigências beneficia os Estados Unidos. São os três critérios adotados pelo USCIS desde 2016.
Para quem pretende atender pacientes, há a modalidade do EB-2 NIW voltada a médicos, o Physician National Interest Waiver. Ela exige o compromisso de cinco anos de trabalho clínico em tempo integral em áreas com falta de profissionais ou em unidades do Departamento de Assuntos de Veteranos, com uma carta de apoio de agência federal ou do departamento de saúde do estado. O tempo em J-1 não conta para os cinco anos, e o green card só é concedido depois que o período é cumprido.
Há também a fila. No boletim de vistos do Departamento de Estado de novembro de 2026, a data de corte do EB-2 para brasileiros, que entram na categoria resto do mundo, estava em 1º de abril de 2025: só pedidos com data de prioridade anterior podiam receber a decisão final.
“No EB-2 NIW, o próprio médico é o peticionário. O trabalho está em mostrar, com documentos, por que a atuação dele interessa aos Estados Unidos, e isso começa muito antes do protocolo”, afirma Érika.
Por onde começar
O roteiro que Érika propõe parte do perfil, não do visto: em que fase da carreira o médico está, se quer atender pacientes ou atuar em pesquisa e ensino, em que estado pretende trabalhar e qual é a sua situação migratória hoje. Com essas respostas, a escolha entre J-1, H-1B, vias estaduais e green card deixa de ser aposta e passa a ser planejamento.
Ela recomenda começar pelas fontes oficiais, como a ECFMG, a FSMB, que reúne os conselhos médicos estaduais, o conselho do estado escolhido e o USCIS, e buscar análise individual antes de investir em provas, candidaturas ou pedidos de visto.
“Não existe roteiro único. Existe o roteiro de cada médico, e ele começa por uma leitura honesta do perfil e das regras do estado onde ele quer atender”, resume Érika.
Érika Calazans é advogada internacionalista (OAB/MG 153.995), doutora em Direito Internacional pela Universidade de Kobe, no Japão, com pós-doutorado na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), e preside a Comissão de Direito Internacional da OAB/MG, subseção Contagem. Professora há mais de 20 anos, atua na assessoria de processos de self petition para os Estados Unidos, da estratégia ao acompanhamento, com advogado americano credenciado quando há intervenção formal. É autora do Manual definitivo do green card para médicos. Mais informações em erikacalazans.com.br e no Instagram @erikacalazansadv.




