Especialista da Aliá Partners alerta para a importância de verificar quem administra os produtos presentes na carteira e quais relações existem entre gestores, fundos e investimentos recomendados
O crescimento da oferta de produtos financeiros trouxe ao investidor uma questão que vai além da rentabilidade esperada: quem está recomendando o investimento também participa da estrutura que administra ou recebe recursos daquele produto? O alerta é feito por Gabriel Magalhães, sócio fundador e estrategista-chefe da Aliá Partners, diante de situações em que empresas responsáveis pela gestão ou orientação patrimonial também possuem fundos e projetos próprios.
Segundo o especialista, o problema aparece quando a remuneração pela gestão do patrimônio pode coexistir com interesses econômicos relacionados aos produtos indicados ao cliente. Nesses casos, ele defende que o investidor deve investigar a estrutura por trás de cada ativo antes de tomar uma decisão.
“Quando uma pessoa paga para ter uma gestão ou orientação sobre o próprio patrimônio, ela espera que a recomendação seja feita a partir do que faz sentido para a carteira dela. Se a mesma casa possui produtos próprios e esses produtos aparecem de forma recorrente nas carteiras dos clientes, é preciso entender quais são os incentivos envolvidos e como os conflitos são tratados”, afirma Gabriel.
A preocupação está alinhada às próprias exigências da Comissão de Valores Mobiliários. Em orientação publicada em 2026, a área técnica da CVM destacou que a atividade de consultoria de valores mobiliários deve ser exercida com independência em relação a emissores e distribuidores. O órgão também afirma que o consultor deve analisar riscos, custos e vantagens das recomendações e priorizar os interesses e objetivos do cliente.
A CVM também estabeleceu regras de transparência sobre práticas remuneratórias e potenciais conflitos de interesse no mercado de intermediação. A Resolução CVM 179 passou a exigir a divulgação de informações qualitativas e quantitativas sobre arranjos de remuneração e criou um extrato trimestral sobre essas receitas.
Para Gabriel, um dos sinais que merece atenção aparece quando um fundo continua recebendo novos recursos mesmo diante de uma deterioração dos indicadores de sua carteira. Um aumento do patrimônio ou do número de cotistas, segundo ele, não deve ser interpretado isoladamente como sinal de qualidade do investimento.
“Se um fundo que empresta dinheiro para determinado segmento começa a registrar aumento de inadimplência e, mesmo assim, continua crescendo em patrimônio e número de cotistas, isso deveria levar o investidor a fazer perguntas. É preciso entender por que o produto continua sendo recomendado, quais são os riscos atuais e se a tese de investimento continua de pé”, explica.
O tema ganhou relevância no mercado brasileiro após episódios recentes envolvendo estruturas financeiras complexas e recursos de investidores. A crise da Apex Partners, por exemplo, levou a medidas judiciais para proteção de empresas do grupo diante de um passivo informado pela Justiça em aproximadamente R$ 975 milhões. A companhia também passou por mudanças em sua administração e iniciou auditorias após questionamentos sobre operações financeiras.
Em outro desdobramento, reportagens recentes apontaram que a crise envolveu operações relacionadas à CVC e ao fundo BRM Carbyne. O ex-presidente da Apex, Fernando Cinelli, nega ter tomado decisões financeiras de maneira isolada e busca documentos para sustentar a defesa. As responsabilidades e circunstâncias das operações continuam sendo objeto de apuração.
Para Gabriel, casos dessa natureza reforçam a necessidade de o investidor compreender a estrutura de governança antes de delegar decisões sobre seu patrimônio.
“Erro faz parte de qualquer atividade profissional. O problema começa quando existe uma estrutura em que a ambição de participar de determinados negócios passa a influenciar a forma como o dinheiro dos clientes é direcionado. Quem trabalha com patrimônio de terceiros precisa ter disciplina para separar os próprios interesses dos interesses do investidor”, afirma.
O que o investidor pode verificar
Na avaliação do especialista, alguns pontos podem ajudar a identificar potenciais conflitos antes de uma aplicação:
Quem administra o fundo: verificar a gestora, o administrador fiduciário e os demais participantes da estrutura.
Quem recebe pela operação: entender as taxas e formas de remuneração envolvidas e se existem outras receitas relacionadas ao produto.
Relação entre a casa e o ativo: verificar se a instituição que recomenda o investimento possui participação, controle ou relação econômica com o produto.
Qual é o risco atual: acompanhar inadimplência, liquidez, concentração da carteira e mudanças relevantes na estratégia do fundo.
Por que aquele produto foi recomendado: compreender como o investimento se encaixa nos objetivos, prazo e perfil de risco do investidor.
A consulta das informações dos participantes regulados e dos fundos também pode ser feita nos canais oficiais da CVM, que disponibiliza dados sobre administradores, gestores, consultores e outros participantes do mercado.
